"O futuro não é o lugar para onde estamos indo, mas o lugar que hoje estamos construindo." 

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Congelamento de Amostras: A Técnica que Garante Precisão na Determinação do Índice de Vazios Final em Ensaios Triaxiais

Quando um corpo de prova rompe e sofre liquefação estática durante um ensaio triaxial, uma pergunta simples pode se tornar extremamente difícil de responder: qual era, de fato, o índice de vazios daquele solo no momento da ruptura?

Parece um detalhe, mas não é. Em solos de comportamento contrátil — justamente os mais suscetíveis à liquefação — pequenas variações no índice de vazios final podem mudar completamente a leitura do ensaio e, por consequência, as decisões de projeto que dependem dele. É por isso que o Laboratório de Ensaios Especiais da Suporte Infra adota técnicas de congelamento pós-ensaio em seus ensaios triaxiais, garantindo que o dado usado em projeto reflita, com a maior fidelidade possível, o estado real do solo no momento da ruptura.

Figura 1 – Amostra que sofreu instabilização por liquefação durante a ruptura.

Por que o índice de vazios final é tão importante?

Todo projeto de barragem de rejeitos, pilha de rejeito filtrado ou aterro sobre solo contrátil depende, em algum nível, da Linha de Estado Crítico (LEC ou CSL). É essa linha que separa, no gráfico de tensão x índice de vazios, o comportamento contrátil (potencialmente instável) do comportamento dilatante (mais seguro) de um solo ou geomaterial.

O parâmetro de estado (ψ), calculado a partir da distância entre o índice de vazios do solo e a CSL, é hoje uma das ferramentas usadas para avaliar o risco de liquefação estática. O problema é que essa distância costuma ser pequena — e é justamente aí que mora o risco: se o índice de vazios final do ensaio estiver errado, a CSL sai do lugar, e o parâmetro de estado calculado a partir dela deixa de representar a realidade do material.


Figura 2 – Representação das regiões no espaço e : log p' e seus estados.

Ou seja: não basta realizar ensaios triaxiais e obter os parâmetros de resistência com precisão — também é preciso saber, com precisão, em que índice de vazios aquele corpo de prova atingiu o estado crítico.

O controle tecnológico moderno de pilhas de rejeitos filtrados não pode se apoiar apenas em parâmetros convencionais de compactação: ele precisa ser ancorado no índice de vazios e no parâmetro de estado (ψ). Paes (2024) reforça esse ponto ao defender que o índice de vazios ideal de compactação deve ser definido a partir de uma extensa campanha de ensaios triaxiais e acompanhado em campo por ensaios de piezocone, garantindo que ψ permaneça negativo ao longo de toda a construção. O problema é que essa cadeia inteira depende de uma referência confiável: a Linha de Estado Crítico. Se o índice de vazios final for mal determinado em laboratório, a CSL sai do lugar — e todo o controle tecnológico de campo, mesmo tecnicamente correto, passa a validar uma referência errada.

O problema dos métodos convencionais

A forma mais tradicional de estimar o índice de vazios final é acompanhar as variações volumétricas da amostra ao longo de todo o ensaio — saturação, adensamento e cisalhamento. Na teoria, funciona. Na prática, acumula erro em cada etapa.

Durante a saturação, por exemplo, o volume de água que entra na amostra não corresponde exatamente ao volume de vazios preenchido, porque sempre há um pouco de ar retido nas linhas de drenagem e nas pedras porosas, além de deformações volumétricas ao longo do processo.

Há ainda o problema físico da desmoldagem: a penetração da membrana e a perda de água por drenagem imediata podem subestimar o índice de vazios real em até 20%, segundo Sladen & Handford (1987). Para um parâmetro que já é sensível por natureza, esse tipo de erro é inaceitável.

A solução: congelar a amostra antes que tudo se perca

O método de congelamento ao final do ensaio — conhecido como EOTSF (End-of-Test Soil Freezing) — resolve o problema pela raiz: em vez de tentar calcular o índice de vazios acompanhando variações ao longo do ensaio, ele preserva fisicamente a água presente nos poros do solo no instante em que o ensaio termina.

A lógica é simples e elegante. Como a amostra está saturada, basta impedir que a água escape antes da desmontagem. Ao congelá-la, a água se transforma em gelo e fica “presa” na estrutura do solo. Depois, mede-se apenas o teor de umidade final da amostra — e, a partir dele, calcula-se o índice de vazios de forma direta, sem depender de nenhuma medição volumétrica acumulada ao longo do ensaio, por meio da seguinte relação fundamental, onde S = 1:

S · ef = w · Gs

O problema do congelamento tradicional (freezer)

O método clássico do EOTSF consiste em isolar as válvulas de drenagem e levar toda a base da célula triaxial para dentro de um freezer. Funciona, mas tem custos práticos relevantes.

As baixas temperaturas provocam variações dimensionais em válvulas, conexões e tubulações, gerando vazamentos e manutenção frequente. O resfriamento em freezers domésticos costuma levar a noite inteira, chegando a temperaturas bem abaixo do necessário (algo em torno de -18ºC). O excesso de frio faz o solo colar fortemente nas pedras porosas e na membrana, dificultando — e às vezes danificando — a desmoldagem. Na prática, o ideal seria chegar a apenas -3ºC, temperatura suficiente para imobilizar a água livre sem gerar esses efeitos colaterais.

Gelo seco: a técnica adotada pela Suporte Infra

A alternativa empregada pelo Laboratório de Ensaios Especiais da Suporte Infra é o congelamento com dióxido de carbono sólido (gelo seco) triturado, posicionado ao redor da amostra com o auxílio de uma capa metálica. Essa técnica, descrita por Marinho et al. (2025), elimina a dependência de um freezer dedicado e ainda protege a câmara triaxial durante o processo.

Figura 3 – Procedimento de Congelamento de amostra com gelo seco.


Figura 4 – Retirada da proteção cilíndrica e do gelo seco após congelamento.

A diferença de velocidade é grande: em amostras de 38x80mm, a temperatura chega a 0ºC em cerca de 3 minutos e a -10ºC em menos de 12 minutos, com congelamento completo em menos de 15 minutos. Com controle adequado do tempo de exposição, evita-se o supercongelamento — o que facilita bastante a retirada dos o-rings e da membrana de látex na sequência.

Figura 5 – Corpo de prova congelado. 

Na prática, o procedimento consiste em fechar os drenos após o fim do ensaio (sem aliviar a contrapressão), esvaziar a câmara triaxial e posicionar um cilindro de alumínio ao redor da amostra, deixando espaço para o gelo seco entre o cilindro e o corpo de prova. À medida que o gelo seco sublima, complementa-se conforme necessário até garantir o congelamento completo — em geral, menos de 20 minutos para amostras de 50x100mm.

Depois de congelada e removida intacta, a amostra é pesada e segue para a estufa. Como o material estava saturado (S = 100%) no momento do congelamento, o índice de vazios final pode ser calculado diretamente a partir do teor de umidade e da densidade dos grãos, sem margem para os erros acumulados dos métodos convencionais.

O que isso significa na prática

Para quem trabalha com projetos de pilhas de rejeito filtrado, barragens alteadas ou qualquer estrutura apoiada em solo com potencial contrátil, a precisão do índice de vazios final não é um detalhe de laboratório — é um dado que impacta diretamente a definição da CSL, o cálculo do parâmetro de estado e, no fim das contas, a segurança da estrutura.

O Laboratório da Suporte Infra implementa processos especiais para a determinação da Linha de Estado Crítico, e o congelamento de amostras é um deles. Técnicas como o EOTSF com gelo seco mostram como pequenos avanços de procedimento em laboratório podem ter um efeito grande nas decisões de engenharia lá na frente — e é esse rigor que a Suporte Infra leva para cada ensaio especial que realiza.

No Laboratório de Geotecnia, a implementação de procedimentos especiais garante que o dado represente o solo como ele realmente se comporta — porque por trás de cada número e cada gráfico existe a segurança de uma estrutura.



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